O Barista – o ebook

Resolvi postar o primeiro capítulo do ebook que concorreu com milhares de publicações no concurso literário da Amazon em 2020.

Boa leitura!


Capítulo 1

Na primavera do ano de 2020, eu estava pedalando, entre a Rua 4 e a Rua 6, indo para o trabalho quando vi uma cafeteria na esquina. Em minha mente veio a imagem de um antigo companheiro – o Guido!

Conheci o Guido quando ele trabalhava em uma cafeteria em Goiânia, mas contarei a sua história desde o início até os dias atuais.

Para falar a verdade esta história começa na Itália, especificamente em Precaria, ao Sul de Castelnuovo, em 1944 em alguma manhã de inverno.

Estava quase no fim da 2ª Guerra Mundial (que escrito desta forma, diminui a importância de cada dia em combate), um pelotão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) estava no povoado. A população civil italiana estava devastada. Com frio, com fome, sua cidade destruída, parentes mortos, pouca informação sobre o resto do mundo e o medo criando cenários horríveis em suas mentes. 

Agora você imagina um soldado brasileiro, de cor de pele jamais vista por uma criança italiana, dividindo (brasileiros não davam o que sobravam – eles dividiam tudo que tinham) seu mingau, pão café com crianças do povo inimigo.

Um destes jovens era o avô de Guido que se chamava Dante. Ele contava a Guido que a fome era tanta que não sabia o que doída mais, se era a fome ou o frio.

Quando os brasileiros chegaram em Precaria meses antes de conquistar Castelnuovo, diversas vezes repartiram o pão com as pessoas do povoado e duas imagens ficaram gravadas na mente do rapaz Dante para sempre: a divisão do pão e o nome GUIDO na gandola do brasileiro.

Ele viu as letras enquanto o brasileiro se abaixou para oferecer o alimento.

Você já deve ter lido outros livros que falam de guerra e sabe que um pouco de alimento faz a diferença entre a inanição e a morte.

O “mingau” que era compartilhado pelos soldados brasileiros se transformou em gíria para as gerações futuras. Mingau se tornou sinônimo de “algo muito bom”.

Vinda para o Brasil

O jovem Dante, órfão e desnutrido, por circunstâncias não explicadas para mim, chegou ao Brasil, na cidade de Patos de Minas e lá se desenvolveu, constituiu família. Teve um filho que foi batizado de José por insistência a da família da sua esposa e pensou – no meu próximo filho eu coloco o nome de Guido. O próximo não veio, mas veio o neto e este foi batizado com nome de Guido.

Guido cresceu em Patos de Minas. Pessoa observadora, conseguia prever o que as outras pessoas necessitavam mesmo antes que se pronunciassem e esta habilidade surgiu por coincidência ou não, por volta dos seus 23 anos de idade.

I – Patos de Minas

No ano de 2018, na época da colheita do café, Geraldo e Guido trabalham como de costume. Geraldo é um homem prático. Gosta de questionar a respeito de tudo, mas não busca as respostas para nenhuma de suas perguntas.

Guido é mais reflexivo e focado em seu trabalho. Às vezes é considerado perfeccionista e outras vezes é alguém que fica “inventando” modos diferentes para fazer atividades conhecidas e que nem sempre funcionam. Mas Guido é persistente.

– Este é tão bom e é todo exportado. Qual é o café que as pessoas bebem? – pergunta Geraldo.

Guido continua a trabalhar e disfarça não ouvir, que acaba estimulando o Geraldo a continuar a sabatina.

– Será que as pessoas sabem como é que o café chega ao mercado?

Guido se afasta e continua a retirada manual das cerejas de café.

– Será que elas sabem que existimos?

Guido neste momento para o trabalho, levanta a cabeça e olha para o céu. Neste movimento lento seus pensamentos se modificam de um “o que eu fiz para merecer este cara que não para de falar” para “será?!”

Neste momento Geraldo tem que dar a última palavra antes de continuar colher as cerejas maduras e vermelhas do assunto principal.   


– O que você acha Guido?

De volta da área de colheita para a sede da fazenda, os empregados se reúnem no refeitório.

O refeitório na realidade é uma sala com setenta metros quadrados de uma casa colonial. Típica casa no estilo português da época da colônia portuguesa.

Helena é a proprietária de uma fazenda que é passada de geração em geração ainda em vida, da qual Helena faz parte da 3a. geração.

Marcos é o gerente da fazenda e é ele quem apresenta as novidades e possibilidades de negócios para Helena.

Helena comenta que precisa melhorar a visibilidade da empresa na internet e que deseja fazer negócios pela internet. Marcos apoia e comenta que não se pode esquecer que o café une as pessoas e que são necessárias ações para promover visitação e quem sabe criar uma mini pousada voltada para o público dos amantes de café e estudantes de agronomia.

Guido escuta esta conversa enquanto mói um café torrado para o preparo do café dos seus colegas.

Interessante é que nesta fazenda, os empregados receberam aulas sobre o preparo do café e no refeitório são servidos dois tipos de preparo: o espresso ou na prensa francesa

Marcos pega dois expressos e bolachas e serve Helena que já estava sentada à mesa. Como sempre, elogiam o Guido pela forma de preparo do café.

Guido agradece e continua a preparar o café em uma prensa francesa para seus colegas de trabalho.

– Nós que trabalhamos com os músculos precisamos de quantidade (servindo-se na prensa francesa) e de volume, comenta o falante Geraldo.

– A fazenda recebeu pedido de uma nova cliente que nos achou pela internet. – Afirma Guido para Geraldo.

 – Acharam a fazenda? – pergunta Geraldo com toda a ironia que lhe é peculiar.

Já a noite, Guido se prepara para dormir e seus pensamentos não o permite.

Guido se lembra da pergunta do amigo – “acharam a fazenda?”  e fica refletindo, seus pensamentos não lhe deixam descansar.

Será que o soldado Guido, que seu avô Dante sempre o lembrava, imaginou que um único ato seu motivaria um menino a continuar em frente? A ter um propósito na vida?

Quem mais saberia disto, seria o Guido um invisível também?

– Não! Eu não serei invisível ainda mais agora em tempos de paz e em um planeta globalizado.

Guido se decide – farei algo! E vai ser amanhã! E eis que o sono vem.

Guido não era órfão, mas desde o ano de 2015, mudava de cidade em busca de trabalho. Nesta última fazenda foi uma experiência mais promissora devido ao conhecimento compartilhado. Guido era barista e tinha uma habilidade nata para harmonização de alimentos. Não falava muito o que é ideal para quem prepara alimentos e nesta época, aprimorou-se nos lanches com café envolvido.

Guido decide completar o trabalho na fazenda e nos últimos dias da colheita, percebeu que na outra fazenda vizinha existia uma série de toneis azuis.

Para que toneis em uma fazenda de café? Será que estão fazendo licor de café? Se o vizinho produz um produto que não conheço como posso esperar que as pessoas da cidade grande saibam sobre nosso trabalho ou sobre a qualidade do café?!

Estas perguntas ficavam vindo e voltando na mente de Guido.

Decidido a se mudar para uma cidade maior, dá-se o início do seu planejamento. Acreditando em seu conhecimento e em suas habilidades de barista, conseguir um trabalho seria um problema rapidamente resolvido. Faltava onde morar e como fazer para divulgar o trabalho do produtor do campo para as pessoas ocupadas da cidade grande.

As palavras de seu avô não saiam de sua cabeça: “Guido fez o bem a um inimigo”. “Afinal, que garantias que tínhamos que a guerra acabaria?”  E se houvesse outra?” “Como alguém divide o alimento com o inimigo?” “Eu era um rapaz, mas era italiano.” “Guido, meu neto, faça o bem e perdoe! Até no paraíso havia um demônio, então você não pode querer ser perfeito e nem exigir perfeição das pessoas”. “Certamente, o soldado brasileiro Guido foi um anjo em minha vida.  O seu anjo aparecerá para você também!”

Talvez seja vaidade eu querer impor às pessoas que saibam como o café é colhido ou processado. Como deve ser preparado ou harmonizado. Meu avô estava certo: “não posso exigir perfeição”.

Mas a ideia de se mudar ainda lhe parecia interessante. Ele poderia trabalhar na fazenda na época da colheita e na cidade nos outros meses. Guido criava cenários em sua mente e refazia os cenários… e lhe vinha a memória os tonéis azuis da fazendo do vizinho e o seu propósito de vida.

A curiosidade de Guido foi maior que a sua timidez e no dia seguinte ele visitou a fazenda vizinha. Intrigado pela presença dos toneis azuis, ele se apresenta e é recebido pelo proprietário da fazenda. Guido vai direto ao ponto – esses toneis azuis são para fermentar o licor?

– Café fermentado, já ouviu falar?

– Quando fermenta não se transforma em licor? O açúcar se transforma em álcool. Isto é café riado. É para café solúvel?

– Este processo é diferente. É controlada a temperatura, a acidez, o tempo do processo. É artesanal e o processo, poderemos obter uma bebida com notas sensoriais diferentes.

– Sempre pensei em bebida fermentada como bebida sem valor e de sabor ruim.

O vizinho mostra com orgulho para Guido o trabalho de fermentação e oferece um pouco de café em grãos para que ele experimente.

Guido agradece e os dois acabam trocando os contatos.

A viagem

Guido chega em Uberlândia. Saindo da Rodoviária, seguiu em meio a correria do dia-a-dia e fica diante de um local escrito cafeteria no letreiro e entra, pede um café e a atendente lhe diz firmemente: – “Ficha no caixa”.

Guido se dirige ao caixa e pede um café a caixa pergunta o tipo. 

– Preto.

– Três reais.

Guido percebe o alto custo de vida em uma cidade maior, agradece e se retira sem comprar.

Saindo desta cafeteria e começa a andar pelas ruas e seus instintos lhe faz caminhar por uma hora mais ou menos. Eis que se depara com a Paróquia Nossa Senhora do Caminho no bairro de Santa Mônica. Guido entra, descansa e reza. Cerca de meia hora depois, Guido se retira em busca de uma agência de empregos que ele tinha visto na internet e que por sorte, manteve os dados atualizados. Isto fez com que ele chegasse rapidamente ao local.

Na agência, Guido aguarda o atendimento.

– Bom dia! Qual sua profissão? O que sabe fazer?

– Colher café, preparar café e alguns lanches.

– Bem, aqui na cidade não existem fazendas de café.

– Preencha seus dados aqui nesta folha e se houver alguma oportunidade em bar ou padaria, farei contato com você.

Após preencher os dados, Guido entrega o formulário à atendente que nem sequer o lê. Apenas coloca em uma caixa de papelão.

Guido sai da agência desanimado com esta primeira dificuldade e já pensa para onde deveria ir. Bater de bar em bar perguntando que precisa de ajuda. Absorto em seus pensamentos, eis que é atropelado por Carlos que estava andando apressadamente. Foi uma trombada daquelas que te pega de surpresa e você não consegue se equilibrar e cai.

Guido cai, mas seu estado de espírito era calmo e ele tinha outras prioridades do que sentir raiva. Ao mesmo tempo, Carlos o vendo no chão pede desculpas e vai logo ajudando.

 – Desculpe amigo. Estou com tanta pressa que nem te vi saindo. Você está bem?

– Estou.

– Vem comigo, vou lhe pagar um café. 

Guido caminha com Carlos que comenta:

– Estou indo me encontrar com minha tia Diva. Ela tem uma cafeteria e está com dificuldades pois uma funcionária se demitiu sem aviso prévio. Vou lá ver em que posso ajudá-la.

– Isso é difícil.

– Minha tia está com uma máquina nova de café e está “tomando um pau” com a máquina.

– A outra funcionária foi trabalhar em uma grande rede de cafeterias em Goiânia.

Carlos entra na cafeteria e Guido o segue. Carlos os apresenta e conta o incidente resumidamente e Diva vai logo falando com o sobrinho e “puxando-o” para uma mesa onde ela estava envolta de documentos e boletos. 

Guido se comporta de forma natural, afinal este tipo de ambiente já lhe é familiar. Curiosamente se aproxima da máquina de espresso. Limpa o bico do leite, limpa os grupos e quase que instintivamente prepara um espresso, afinal, ele havia sido convidado para tomar um café. Enquanto bebe o espresso, faz uma careta e Diva o observa a distância e

Guido aproveita para regular o moinho, prepara outro espresso e este sim o satisfaz.

Logo após, um homem entra e rapidamente se dirige ao balcão e pede um espresso. Guido prepara e entrega.

Ao longe os ouvidos de Diva e seu sobrinho ficam alerta quando o homem bate no balcão energicamente e fala em bom tom:

– Este sim é um espresso! Parabéns! E se dirige sorridente e apressadamente para o caixa.

Guido inicia de forma automática o ritual de limpeza do barista e Diva se aproxima e se desculpa: -Meu sobrinho te atropela e te convida para um café e você acaba servindo para meus clientes. Se não se importar, prepare um cappuccino, um long black e uma bebida a sua escolha para você; pegue três croissants e venha comer conosco.